Boca de Ozempic: o que se sabe sobre os possíveis efeitos da semaglutida na saúde bucal

Adriana Morosini CREDITO Dayvison Nunes scaled

Relatos de boca seca, refluxo e alterações no hálito levantam debate entre profissionais de saúde sobre impactos indiretos da medicação na cavidade oral

Medicamentos à base de semaglutida, como Ozempic, Wegovy e Rybelsus, ganharam grande visibilidade nos últimos anos por sua eficácia no controle do diabetes tipo 2 e na perda de peso. Com a ampliação do uso dessas medicações, entretanto, novos relatos clínicos começaram a surgir, incluindo possíveis manifestações na saúde bucal.

Nas redes sociais e na imprensa internacional, expressões como “boca de Ozempic”, “bafo de Ozempic” ou até “dentes de Ozempic” passaram a circular para descrever queixas associadas ao uso da substância, embora não representem um diagnóstico clínico. 

Sintomas da “boca de Ozempic”

Segundo a cirurgiã-dentista Adriana Morosini, alguns efeitos associados ao uso dessas medicações podem alterar indiretamente o equilíbrio da cavidade oral. Entre as queixas mencionadas estão boca seca (xerostomia), alteração do paladar, sensibilidade dentária, halitose e episódios de refluxo gastroesofágico. 

“Ainda não existe consenso científico de que a semaglutida cause danos diretos aos dentes, mas na prática clínica, alterações como boca seca e refluxo podem favorecer problemas odontológicos”, explica.

A saliva desempenha um papel fundamental na proteção da saúde bucal. Ela ajuda a neutralizar ácidos, controla a microbiota da boca e contribui para a remineralização do esmalte dentário. Quando há redução do fluxo salivar, o ambiente oral pode se tornar mais vulnerável ao desenvolvimento de cáries, desgaste do esmalte e sensibilidade.

Além disso, episódios frequentes de refluxo também podem afetar os dentes. O ácido gástrico que retorna à cavidade oral pode provocar erosão química no esmalte dentário, aumentando o risco de desgaste e hipersensibilidade ao longo do tempo.

A importância do acompanhamento odontológico

Para Adriana, o mais importante neste momento é a observação clínica e o acompanhamento multidisciplinar dos pacientes. “O uso dessas medicações deve sempre ser orientado por um médico. Do ponto de vista odontológico, o ideal é que pacientes que percebam sintomas como boca seca, alteração do hálito ou sensibilidade procurem avaliação com cirurgião-dentista. Muitas vezes é possível adotar medidas simples de prevenção e controle”, orienta.

Segundo a especialista, a odontologia tem papel importante na identificação precoce dessas alterações. Durante a consulta, o cirurgião-dentista pode avaliar sinais de erosão do esmalte, alterações salivares e outras mudanças na cavidade oral que podem passar despercebidas pelo próprio paciente.

Com a crescente popularização dos medicamentos à base de semaglutida, especialistas acreditam que novas evidências sobre seus possíveis efeitos na saúde bucal ainda devem surgir nos próximos anos. Até lá, a recomendação é manter acompanhamento médico e odontológico regular durante o tratamento.

Adriana Morosini é cirurgiã-dentista e implantodontista.

@dra.adrianamorosini