Pela primeira vez, o Brasil celebra o Dia Nacional do Orgulho Autista em 18 de junho, data criada para promover a valorização da neurodiversidade, ampliar a visibilidade das pessoas autistas e fortalecer a luta por inclusão e respeito. A iniciativa também busca combater estigmas ainda associados ao transtorno do espectro autista (TEA) e incentivar uma sociedade mais acessível e acolhedora.
Para a psicóloga Frínea Andrade, especialista em autismo e mãe de um adolescente com autismo nível 3 de suporte, a oficialização da data representa um avanço importante na conscientização da sociedade sobre os direitos e as potencialidades das pessoas autistas. “Ficamos muito felizes de ter essa data oficializada no nosso calendário nacional. É uma oportunidade de apoiar pessoas com autismo e suas famílias em uma luta que, pouco a pouco, vem ganhando espaço e reconhecimento. Também é um momento de combater estereótipos, respeitar as individualidades e aprender a conviver com as diferenças”, afirma.
Autismo no Brasil
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coletados em 2022, o país possui cerca de 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo. Em Pernambuco, esse número ultrapassa 105 mil pessoas. Especialistas avaliam que os dados ainda podem estar subestimados, considerando o aumento dos diagnósticos observado nos últimos anos.
Da experiência pessoal à defesa da inclusão
A atuação de Frínea Andrade na causa do autismo nasceu de uma experiência familiar. Em 2009, após o diagnóstico do filho Dmitri, ela largou a faculdade de Direito e decidiu cursar Psicologia para compreender melhor a condição e contribuir com o desenvolvimento do seu filho Ao longo dos anos, especializou-se na área e fundou a Clínica Integrarte, atualmente Instituto Dimitri Andrade, instituição voltada ao atendimento de pessoas autistas e outras neurodivergências da infância à vida adulta, com três unidades em Pernambuco, além do Instituto Davi Andrade, que homenageia o irmão de Dimitri.
A psicóloga também está à frente de iniciativas como mutirões gratuitos de avaliação, ações de conscientização, formação de profissionais, o bloco inclusivo Ser Diferente é Normal, realizado durante o Carnaval do Recife, e o Congresso Autismo na Vida Adulta Nordeste, dedicado à discussão dos desafios enfrentados por pessoas autistas após a infância.
Autismo é uma condição do neurodesenvolvimento
O transtorno do espectro autista é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferentes formas de comunicação, interação social e processamento de estímulos. Por se manifestar de maneiras variadas, utiliza-se o termo “espectro”, que contempla diferentes níveis de suporte e necessidades individuais.
Os sinais costumam surgir ainda na infância, embora o diagnóstico na vida adulta tenha se tornado cada vez mais frequente. Entre as características mais comuns estão:
- Comportamentos repetitivos e interesses restritos;
- Dificuldade em manter contato visual;
- Sensibilidade sensorial aumentada;
- Atraso no desenvolvimento da fala;
- Resistência a mudanças na rotina;
- Dificuldades na comunicação e interação social.
Os desafios da vida adulta
Apesar dos avanços na conscientização e no acesso ao diagnóstico, a inclusão ainda enfrenta obstáculos importantes após a adolescência. O acesso ao mercado de trabalho, ao lazer e à participação social continua sendo um desafio para muitas pessoas autistas e suas famílias.
“Passamos toda a infância dos nossos filhos buscando desenvolvimento e autonomia através das terapias. Infelizmente, quando chega a vida adulta, muitos não encontram espaços para continuar crescendo. Muitas empresas até abrem vagas inclusivas, mas não acompanham o processo de inserção, não adaptam o ambiente e não conscientizam as equipes para garantir a permanência dessas pessoas. Incluir não é apenas abrir vagas”, ressalta a psicóloga.
Dados do portal Autism Speaks apontam que cerca de 85% dos adultos autistas estão fora do mercado de trabalho, evidenciando a necessidade de políticas públicas e iniciativas que promovam inclusão efetiva.
“Esta data é uma oportunidade para ampliar o debate sobre direitos, acessibilidade e participação social, reforçando que a inclusão depende de ações concretas e do reconhecimento da diversidade humana em todas as fases da vida”, ressalta Frinea Andrade, psicóloga especialista em autismo e mãe atípica.
