A chegada das férias e das festas de fim de ano costuma representar descanso e confraternização, mas para famílias com pessoas autistas, esse período pode trazer desafios importantes, especialmente pela quebra da rotina e o aumento de estímulos sonoros, sociais e sensoriais.
A psicóloga Frínea Andrade, especialista em Transtorno do Espectro Autista e mãe atípica de um jovem com autismo, aponta os desafios das mudanças de rotina. “A mudança brusca de rotina pode provocar ansiedade, insegurança ou comportamentos desorganizados. Por isso, tudo começa com a preparação. A pessoa autista precisa entender o contexto do que está por vir”, orienta.
A especialista defende que a informação é uma forma de acolhimento. Explicar com antecedência o que vai acontecer é fundamental para uma adaptação mais tranquila. “Muitas vezes, por não serem ativos na linguagem verbal, pensamos que eles não compreendem. Precisamos acabar com o comportamento de não informar. O primeiro passo é contextualizar: falar sobre o mês de dezembro, as férias, o Natal, a noite de Réveillon, se haverá viagem ou se a família vai receber visitas”.
A psicóloga destaca que as agendas visuais são grandes aliadas. Calendários com fotos, sequência de figuras para cada dia da semana ou histórias sociais ajudam a organizar mentalmente as mudanças que virão. “Se houver viagem, vale mostrar imagens do local, do meio de transporte, quem vai junto. Se a família for receber parentes, também é importante apresentar quem são essas pessoas”, acrescenta Frínea Andrade.
Como manter a rotina durante as férias
Mesmo nas férias, alguns pilares da rotina devem ser preservados
- Manter horários aproximados de sono e alimentação
- Criar um espaço de descanso seguro e silencioso em casa
- Intercalar atividades novas com brincadeiras já conhecidas
- Continuar as terapias ou adaptá-las ao período de férias
- Conversar com a equipe terapêutica para ajustes no plano de intervenção
“A gente se preocupa muito com o retorno às aulas, mas raramente com o fim das aulas. Eles sentem a falta da rotina e dos colegas. A continuidade das terapias e certo nível de estrutura ajudam a evitar regressões”, explica.
Como preparar a pessoa com autismo para as festas de fim de ano?
Frínea recomenda resgatar imagens do Natal do ano anterior, montar a árvore em família ou criar novos símbolos juntos. “Esses rituais ajudam a construir memória afetiva e facilitam o aprendizado. Eles guardam essas lembranças.”
No caso da queima de fogos, ela enfatiza que pode causar medo e desorganização emocional em algumas pessoas neurodivergentes. “É essencial antecipar esse momento: mostrar vídeos, testar o volume dos sons, explicar o que vai acontecer. Em casos de sensibilidade auditiva, o abafador é um aliado”, aconselha a psicóloga.
“Se a pessoa não estiver confortável com muitas pessoas, não devemos insistir. É preciso ouvir o autista, ainda que de forma não verbal, e respeitar seus limites de desconforto”, completa.
Apresentação escolar e reuniões familiares
As apresentações de fim de ano exigem atenção especial. Antes da data, o ideal é conhecer o ambiente, experimentar a roupa e conversar sobre o evento. “Às vezes, seguimos a multidão e esquecemos de perguntar: a pessoa autista quer se apresentar? O conforto dela deve vir antes da expectativa social.”
Também nas reuniões familiares é possível promover inclusão por meio de pequenas adaptações: “Se o barulho estiver alto, podemos pedir para baixar. Se usarmos histórias sociais, com imagens e ações concretas, conseguimos mostrar o passo a passo do que vai acontecer. Isso reduz a ansiedade. Com preparação, previsibilidade e escuta ativa, as festas e férias podem ser acolhedoras também para quem vive o autismo. Quando a gente organiza o ambiente e respeita o tempo da pessoa autista, todos vivem uma festa mais humana e possível”, conclui a psicóloga especialista em autismo Frínea Andrade.



