Doença neurológica ainda pouco divulgada pode comprometer funções básicas do dia a dia
O dia 6 de maio marca o Dia da Conscientização da Distonia, condição que provoca movimentos involuntários e dores que podem limitar atividades da rotina, como se alimentar, se vestir e até caminhar. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 65 mil pessoas vivem com o diagnóstico no Brasil, enquanto, globalmente, a estimativa é de aproximadamente sete casos para cada mil habitantes.
O médico neurocirurgião Julio Lustosa, com atuação em transtornos do movimento, explica que a doença afeta diretamente o controle dos movimentos. “A distonia é um distúrbio neurológico em que o paciente apresenta contrações musculares involuntárias, que podem ser contínuas ou intermitentes, levando a movimentos anormais e alterações na postura do corpo”, explica.
A distonia pode se manifestar de diferentes formas. Em alguns casos, atinge regiões específicas do corpo, como mãos, face ou membros inferiores, as chamadas distonias focais. Em outros, pode comprometer áreas mais amplas, como cabeça e pescoço, ou até todo o corpo, caracterizando a forma generalizada da doença.
As causas variam e podem estar associadas a fatores genéticos, a outras doenças neurológicas ou ao uso de determinados medicamentos, como antipsicóticos. “O diagnóstico é clínico, baseado na avaliação dos sintomas, e pode ser complementado por exames de imagem, como ressonância magnética e tomografia computadorizada, além da eletromiografia, que analisa a atividade elétrica dos músculos”, aponta o médico Julio Lustosa, neurocirurgião com atuação em neuromodulação.
Tratamento exige abordagem individualizada
O tratamento da distonia depende dos sintomas. Em muitos casos, o uso de medicamentos isoladamente não é suficiente para garantir qualidade de vida ao paciente.
“Nos casos de distonia focal, que atinge apenas uma região do corpo, a aplicação de toxina botulínica costuma ser a principal indicação, pois promove um enfraquecimento muscular controlado e alivia os sintomas. Já nas formas generalizadas, ou quando não há resposta satisfatória aos medicamentos e à toxina, a cirurgia de DBS, conhecida como Estimulação Cerebral Profunda, é uma das alternativas mais avançadas para o tratamento da doença”, explica o especialista.”, explica o especialista Julio Lustosa.
Estimulação cerebral profunda
A Estimulação Cerebral Profunda (DBS) consiste na implantação de eletrodos em áreas específicas do cérebro responsáveis pelo controle dos movimentos.
“Esses eletrodos são conectados a um dispositivo semelhante a um marcapasso, que regula a atividade elétrica dessas regiões. A melhora é gradual, pois o cérebro precisa reaprender a funcionar, a redução das contrações traz alívio para as dores sentidas pelos pacientes, recuperando a autonomia e a qualidade de vida”, detalha Julio Lustosa.
O especialista ressalta que o sucesso do tratamento não depende apenas da cirurgia, mas de um acompanhamento especializado no pós-operatório para programação e ajustes do dispositivo. “Esse eletrodo, que tem milhares de configurações possíveis, precisa ser programado por um neurologista especialista em distúrbios do movimento e neuromodulação”, afirma.
O médico destaca que, quando bem indicada, a cirurgia pode representar uma mudança significativa na qualidade de vida dos pacientes. Ele relembra um dos casos mais marcantes de sua trajetória: o de uma criança com distonia generalizada, que apresentava limitações severas de mobilidade e autonomia. “Essa criança tinha uma contratura generalizada. Ela já não conseguia mais andar, quase sem se mexer e com muita dificuldade de deslocamento para fazer sua higiene pessoal e se alimentar, e com dores muito fortes. Após o DBS, aos poucos, ele foi se recuperando e, seis meses após a cirurgia, já senta sozinho, joga videogame, está começando a andar e vai voltar pra escola”, relata.
Julio Lustosa é médico Neurocirurgião com atuação em Neuromodulação, Dor Crônica, Parkinson e outros Transtornos do Movimento, e sócio da clínica Allevia Health e da Neuron Clínica. É Preceptor da Residência Médica em Neurocirurgia do Hospital da Restauração, Diretor do CenDor (Centro Especializado de Neurocirurgia e Dor). Coordena o Grupo de Gerenciamento e Controle da Dor do Hospital Memorial São José, Hospital Esperança e Hospital Memorial Star, e a Especialização Médica em Terapia da Dor, do Hospital Memorial São José. Também é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Funcional e da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED).



