Psicóloga alerta para os impactos do vício em apostas esportivas na saúde mental e explica por que o problema vai muito além da “falta de autocontrole”
O crescimento das plataformas de apostas esportivas colocou a ludomania — transtorno caracterizado pelo comportamento compulsivo relacionado aos jogos de azar — no centro do debate sobre saúde pública no Brasil. Os brasileiros destinam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês às apostas on-line, segundo dados apresentados pelo Banco Central à CPI das Bets em 2025. Em paralelo ao crescimento desse mercado, especialistas em saúde mental alertam para o avanço da ludomania e para os impactos emocionais, familiares e financeiros provocados pelo vício em apostas.
Para a psicóloga clínica e arteterapeuta Djenane Mendonça o problema não está apenas na facilidade de acesso às plataformas, mas na forma como elas são estruturadas para estimular a repetição do comportamento.
“As apostas ativam mecanismos cerebrais relacionados ao prazer e à expectativa da recompensa. O problema é que, quando esse ciclo passa a dominar a rotina da pessoa, ela perde progressivamente a capacidade de controlar os impulsos, comprometendo relacionamentos, trabalho, finanças e saúde mental.”
Segundo a especialista, que é coordenadora da Alma Psicologia e Arteterapia, a ludomania é um transtorno reconhecido pela medicina e pela psicologia e não deve ser confundida com falta de disciplina ou de força de vontade.
“Existe muito preconceito. Muitas famílias interpretam o comportamento como irresponsabilidade financeira, quando, na verdade, estamos diante de um adoecimento psíquico que exige acolhimento e tratamento especializado.”
Quando o lazer deixa de ser diversão
Djenane explica que um dos principais sinais de alerta é quando a pessoa perde a capacidade de interromper as apostas, mesmo percebendo os prejuízos.
“É comum observar tentativas constantes de recuperar o dinheiro perdido, aumento progressivo do valor das apostas, irritação quando não consegue jogar, mentiras para esconder o comportamento e comprometimento das finanças familiares.”
O impacto também costuma ultrapassar a esfera econômica
“A culpa, a vergonha, a ansiedade e o isolamento social aparecem com frequência. Em muitos casos, o transtorno vem acompanhado de depressão, crises de ansiedade e outros problemas emocionais que precisam ser tratados em conjunto.”
Tratamento exige compreensão do comportamento
Embora o debate público frequentemente esteja voltado aos prejuízos financeiros causados pelas apostas, Djenane Mendonça ressalta que a recuperação depende da compreensão dos aspectos emocionais envolvidos.
“O tratamento busca identificar quais necessidades psíquicas estão sendo preenchidas pelo comportamento compulsivo, qual a dor que está por trás do vício. Cada pessoa possui uma história diferente e compreender esses fatores é essencial para se construir novas formas de lidar com emoções, frustrações e impulsos.”
A psicóloga destaca que o apoio da família também desempenha papel importante durante o processo terapêutico. “Quanto mais cedo o problema é identificado, maiores são as chances de interromper o ciclo compulsivo antes que ele provoque consequências ainda mais graves.”
Djenane Mendonça é psicóloga clínica e arteterapeuta, com atuação voltada ao atendimento de adultos e idosos. Especialista em traumas complexos e transtornos mentais, possui expertise em saúde mental, neurodivergência (TDAH e altas habilidades), burnout, depressão, ansiedade e ludomania (vício em apostas). Também atua no tratamento de transtornos psicossomáticos, luto, dependência química e questões relacionadas às relações familiares e à conjugalidade. Desenvolve seu trabalho a partir da abordagem analítica, integrando a arteterapia como ferramenta terapêutica. É palestrante e coordenadora da Alma Psicologia e Arteterapia, clínica no RioMar Trade Center, no Recife (PE), que reúne uma equipe multidisciplinar de sete profissionais de Psicologia dedicados ao cuidado em saúde mental.



