17 de OUTUBRO: Dia Mundial de Combate à Dor

Neurocirurgiao Julio Lustosa CREDITO Mauricio Barreto 1 scaled

Dor crônica afeta milhões de brasileiros e pode comprometer trabalho e qualidade de vida


Conviver com dor todos os dias pode transformar atividades simples em desafios e comprometer trabalho, sono, relações sociais e qualidade de vida. No Brasil, cerca de 60 milhões de pessoas vivem com dor crônica, segundo a Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED). No mundo, aproximadamente 30% da população convive com dor crônica, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O cenário ganha destaque em 17 de outubro, Dia Mundial de Combate à Dor, data que chama atenção para uma condição que está entre as principais causas de incapacidade e afastamento do trabalho e que ainda é frequentemente subestimada.

A dor crônica é caracterizada pela permanência dos sintomas por mais de três meses e pode continuar mesmo após a resolução da lesão ou doença que a desencadeou, diferentemente da dor aguda, que surge como um sinal de alerta do organismo e tende a desaparecer após a resolução do problema.  O neurocirurgião Julio Lustosa, que atua no tratamento da dor crônica, explica que a condição altera o funcionamento do sistema nervoso. “Quando a dor persiste por muito tempo, o cérebro e as vias nervosas passam a manter esse estímulo ativo de forma contínua. Em muitos casos, a causa inicial já foi tratada, mas o organismo continua interpretando e transmitindo sinais dolorosos”, afirma.

Para o médico Humberto Arcoverde, especialista em dor e com título em Anestesiologia e Medicina Intervencionista da Dor, outro desafio é que o problema costuma se instalar gradualmente, dificultando a percepção do paciente sobre a gravidade do quadro. “Muitas pessoas vão deixando de fazer determinadas atividades, passam a dormir pior, evitam exercícios físicos, sem perceber que a dor está assumindo um papel central na rotina. Quando procuram ajuda, frequentemente já existe um impacto importante na funcionalidade e na qualidade de vida”, explica.

Muito além da dor física

Os impactos da dor crônica vão além do desconforto físico. A condição pode comprometer a mobilidade, a produtividade no trabalho, o convívio social e a saúde emocional. Diversos estudos mostram que pessoas que convivem com dor persistente apresentam maior risco de desenvolver ansiedade, depressão, distúrbios do sono, fadiga e isolamento social. A dificuldade em obter diagnóstico e tratamento adequados também faz parte da realidade de muitos pacientes. Como nem sempre existem alterações visíveis em exames ou sinais aparentes, a queixa frequentemente é subestimada.

Tratamento exige abordagem multidisciplinar

O tratamento varia de acordo com a causa, intensidade e duração da dor, mas normalmente envolve uma combinação de estratégias. Medicamentos com diferentes mecanismos de ação podem ser associados a fisioterapia, reabilitação física e mudanças de hábitos para melhorar a funcionalidade e reduzir o impacto dos sintomas.

Nos últimos anos, procedimentos minimamente invasivos passaram a integrar o arsenal terapêutico disponível para casos selecionados.  Entre os recursos utilizados estão infiltrações, bloqueios analgésicos, radiofrequência e laser de alta potência. As técnicas atuam de formas diferentes, seja reduzindo processos inflamatórios, interrompendo temporariamente a transmissão dos sinais dolorosos ou auxiliando na recuperação dos tecidos.

“O laser de alta potência tem sido utilizado para estimular processos de reparação tecidual, reduzir inflamações e promover relaxamento muscular. Já procedimentos como bloqueios e radiofrequência permitem atuar diretamente em estruturas relacionadas à dor”, explica o especialista.

Neuromodulação amplia as opções terapêuticas

Para pacientes que não apresentam resposta satisfatória aos tratamentos convencionais, a neuromodulação pode representar uma alternativa. A técnica atua diretamente no sistema nervoso por meio de estímulos controlados capazes de modificar a forma como os sinais dolorosos são processados.

O médico Julio Lustosa explica que a estratégia se baseia no conceito de neuroplasticidade, capacidade que o cérebro possui de reorganizar seus circuitos ao longo da vida. “Na dor crônica, muitas vezes o problema não está apenas na lesão original, mas na forma como o sistema nervoso aprendeu a perpetuar aquele sinal. A neuromodulação busca justamente reorganizar esses circuitos para reduzir a percepção dolorosa”, destaca.

Segundo o neurocirurgião, o recurso tem ampliado as possibilidades de tratamento para pacientes com dores persistentes e de difícil controle. “A tecnologia permite enviar estímulos específicos ao sistema nervoso para modular circuitos que passaram a funcionar de maneira inadequada. É uma abordagem que tem transformado a vida de muitos pacientes que já haviam esgotado outras opções terapêuticas”, afirma.

Hábitos que podem agravar a dor crônica

Alguns fatores do dia a dia podem contribuir para a manutenção ou intensificação dos sintomas

  • Alimentação inflamatória;
  • Estresse;
  • Sedentarismo;
  • Ansiedade e depressão.

Para os especialistas, o controle da dor depende não apenas de medicamentos e procedimentos, mas também de mudanças consistentes no estilo de vida. “Tratar a dor significa devolver autonomia e funcionalidade ao paciente. Isso envolve atividade física orientada, alimentação equilibrada, sono de qualidade e cuidados com a saúde emocional. O tratamento mais eficaz é aquele que enxerga o paciente de forma integral”, concluem Humberto Arcoverde e Julio Lustosa.