Envelhecer envolve mudanças que vão muito além da saúde física. A aposentadoria, a saída dos filhos de casa, a perda de pessoas próximas e a redução dos espaços de convivência podem transformar a rotina e a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo. Para a psicóloga clínica Djenane Mendonça, construir uma velhice com sentido passa pela manutenção dos vínculos, pela existência de projetos e pela possibilidade de fazer escolhas mais alinhadas com o que se deseja viver.
“O oposto do envelhecer saudável não é a doença nem a fragilidade. É o desligamento do mundo, das pessoas e de si mesmo”, afirma a psicóloga, arteterapeuta e palestrante Djenane Mendonça.
A mulher e a sensação de invisibilidade
A experiência do envelhecimento também pode ser atravessada de maneira diferente por homens e mulheres. Djenane chama atenção para relatos de mulheres que percebem uma mudança na forma como são vistas socialmente a partir da meia-idade.
“Muitas mulheres relatam a sensação de se tornarem transparentes a partir da meia-idade. Isso mostra que a conexão com o mundo não é só tarefa individual. Depende também de uma cultura que reconheça o lugar dos velhos e combata o idadismo.”
Para a especialista, essa discussão é importante porque o envelhecimento não acontece isoladamente. A maneira como a sociedade olha para a pessoa idosa pode favorecer ou dificultar sua participação, seus relacionamentos e seu sentimento de pertencimento.
Vínculos precisam ser construídos ao longo da vida
A preservação dos vínculos também ganha importância diante das mudanças que chegam com o envelhecimento. A aposentadoria, a viuvez e o afastamento dos filhos podem reduzir uma rede social que, durante décadas, esteve concentrada no trabalho e na família.
“A amizade, cultivada ao longo da vida, não é luxo. É talvez a forma mais importante de cuidado”, destaca a psicóloga.
Djenane chama atenção especialmente para os homens que construíram sua principal rede de relações no ambiente profissional e familiar. Quando essas estruturas mudam, pode surgir uma exposição maior à solidão.
“É muito comum o homem ter concentrado sua rede emocional na família e no trabalho. Quando ele se aposenta, fica viúvo ou os filhos se afastam, pode ficar muito exposto ao isolamento.”
Ter projetos não significa ser produtivo
Outra questão levantada pela psicóloga é a importância de continuar tendo motivos para se movimentar em direção à vida. O projeto de vida na velhice, segundo Djenane, não precisa seguir a lógica de metas, produtividade ou desempenho que costuma marcar a vida adulta.
“Projeto de vida não é meta grandiosa nem desempenho. Seria triste levar para a velhice a mesma lógica que adoece tanta gente na vida adulta. Falo de algo mais simples e mais profundo: um motivo para levantar de manhã, uma direção para a curiosidade, um interesse que organize o tempo.”
Esse projeto pode assumir diferentes formas e não precisa estar relacionado ao trabalho. Pode envolver relações, atividades, interesses, aprendizado ou qualquer experiência que mantenha a pessoa conectada com aquilo que considera significativo.
O envelhecimento também pode ser um momento de rever escolhas. Depois de décadas dedicadas a obrigações profissionais e familiares, pode surgir espaço para decidir com mais clareza quais relações, compromissos e atividades ainda fazem sentido.
Djenane associa esse processo a uma espécie de “faxina existencial”: uma revisão da própria vida que permite selecionar melhor onde colocar tempo, energia e atenção.
Uma velhice bonita também atravessa o sofrimento
Falar em envelhecer saudável, porém, não significa apresentar uma imagem idealizada do envelhecimento. Perdas, doenças, limitações e mudanças fazem parte dessa etapa da vida e precisam ser reconhecidas.
“A velhice bela não é a que não sofre. É a que atravessa o sofrimento sem perder a ligação com o sentido. A questão, portanto, não é encontrar uma fórmula para envelhecer sem dificuldades, mas preservar aquilo que mantém a pessoa ligada à própria vida. Vínculos, curiosidade, interesses e a possibilidade de fazer escolhas podem ajudar a construir uma relação mais autêntica com essa fase”, destaca a psicóloga.
Para Djenane, envelhecer também pode significar chegar a um momento em que algumas cobranças deixam de ocupar o mesmo espaço e a pergunta passa a ser outra: o que ainda faz sentido? É nesse espaço, entre as perdas inevitáveis e as possibilidades que permanecem, que a especialista situa a construção de uma velhice com mais significado.
Djenane Mendonça é psicóloga clínica e arteterapeuta, com atuação voltada ao atendimento de adultos e idosos. Também é palestrante, especialista em traumas complexos e transtornos mentais, possui expertise em saúde mental, burnout, depressão, ansiedade e ludomania (vício em apostas). Também atua no tratamento de transtornos psicossomáticos, luto, dependência química e questões relacionadas às relações familiares e à conjugalidade. Desenvolve seu trabalho a partir da abordagem analítica, integrando a arteterapia como ferramenta terapêutica. É palestrante e coordenadora da Alma Psicologia e Arteterapia, clínica no RioMar Trade Center, no Recife (PE), que reúne uma equipe multidisciplinar de sete profissionais de Psicologia dedicados ao cuidado em saúde mental.



